O meu amigo Romeu Pinto da Silva telefonou-me um dia marcando um encontro, assegurando ter uma coisa interessante para me mostrar. Encontrei-o com um considerável maço de papel nas mãos, de onde retirou uma partitura com o curiosa título “Idílio Rústico – poema sinfónico por Gomes Ferreira – 1917”, folheei a partitura e fiquei seriamente impressionado com a qualidade da escrita para orquestra, mas simultaneamente intrigado com a autoria da obra (não existiam assim tantos compositores em 1917 capazes de escrever uma obra desta envergadura, donde o meu espanto pelo desconhecimento do compositor deste poema sinfónico de dimensões muito consideráveis). Quando me aflorava o pensamento “será possível que?....”, imediatamente tive a confirmação: “Sim, sim: é do José Gomes Ferreira!”.
Perante a minha mal refeita surpresa, continuaram a sair do maço de papel numerosas peças para piano, esboços de quartetos de cordas, canções, uma opereta!... Enfim, o suficiente para podermos dizer que houve também um José Gomes Ferreira compositor.
Todo este espólio é constituído por obras de juventude, embora algumas peças revelem uma surpreendente maturidade musical e estética.
O poema sinfónico “Idílio Rústico” baseia-se em “Os meus amores”, de Trindade Coelho, e foi escrito tendo José Gomes Ferreira apenas 17 anos! A estreia teve lugar no Teatro Politeama, no dia 3 de Março de 1918, sob a direcção do maestro David de Sousa.
A escrita deste ambicioso poema sinfónico revela um domínio seguro da escrita romântica para grande orquestra (controle de grandes massas orquestrais, contraponto consistente, equilíbrio formal), deixando no entanto transparecer uma grande permeabilidade à escrita de Claude Debussy (harmonia pouco convencional – modalismo, tons inteiros, ambiguidade tonal..., relacionamento das famílias orquestrais, tratamento da harpa, construção dos clímaxes, arabescos melódicos...).
O título “Idílio Rústico” poderia fazer-nos recear uma daquelas incursões por um certo tipo de escrita “pitoresca” no limiar de um mau gosto que a todos é familiar. Não esse nunca o caso. José Gomes Ferreira consegue realizar genuínas evocações de um ambiente popular, articuladas com naturalidade num discurso orquestral culto e de requintado bom gosto.
A música para piano de José Gomes Ferreira foi quase toda escrita entre os anos de de 1926 e 1929, durante os quais el foi cônsul em Kristiansund, na Noruega. Par tal terá eventualmente contribuído a sua relação com o compositor norueguês Josh. M. Rivertz.
Entre estas obras para piano merecem um particular destaque os três fados, obras de uma expressão nobre e inspirada, que constituem uma particularmente feliz abordagem deste género, paradoxalmente pouco abordado pelos compositores portugueses que mais se identificaram com movimentos nacionalistas ou folcloristas.
Estes três fados revelam muitas das características já referidas a propósito do “Idílio Rústico”, mas revelam também um artista mais maduro, aqui e ali a mostrar influências de um certo tipo de melancolia tão típico dos compositores escandinavos desse período.
O segundo fado, que assume a forma de um tema e variações, é particularmente interessante, revelando um compositor à procura de novas soluções harmónicas, por vezes de uma grande originalidade.
Entre as peças para piano escritas em Kristiansund contam-se também duas valsas (“Valsa do Desdém” e “Valsa das Folhas Secas Caindo”), e uma pequena peça intitulada “Menino Triste”. Estas peças apresentam características formais e harmónicas semelhantes aos três fados.
A restante produção de José gomes Ferreira que conhecemos inclui mais duas valsas para piano (uma delas editada pela casa Valentim de Carvalho), uma opereta (“O senhor e embaixador” – 1916), além de dois quartetos de cordas não terminados e de rascunhos para uma sonata de piano,
Obras musicais de José Gomes Ferreira interpretadas no Cine-Teatro Tivoli em 13 de Setembro às 21 horas e 30 minutos
O menino triste
Valsa das folhas secas caindo
Fado nº 3
Armando Vidal ao piano
Idílio Rústico – Poema sinfónico
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Direcção César Viana
Andam na praia as ondinas
Aquela que eu nunca vi
Inês de Castro – Senhora da Saudade
Soprano: Isabel Alcobia
Piano: Armando Vidal
Balada de uma Heroína
Coral Lisboa Cantat
Direcção: Jorge Carvalho Alves
Canções Heróicas
Acordai
Jornada
Cantiga de escárnio
Rústica
Écloga
Canção campista
Ó pastor que choras
As papoilas
Piano: Armando Vidal
Coral Lisboa Cantat
Direcção: Jorge Carvalho Alves”
In Programa do Concerto de Homenagem a José Gomes Ferreira, realizado no Cine-Teatro Tivoli, 13 de Setembro de 2001, 21 horas e 30 minutos"
Aguarda-se que os Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa editem em CD a gravação do espectáculo realizado no Tivoli.

in: José Gomes Ferreira - Música - minha antiga companheira desde os ouvidos da infância, Editora Campo das Letras, Outubro de 2003
Obras musicais de José Gomes Ferreira
(Listagem)
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(Peças musicais existentes ou referidas em livros, correspondência e imprensa) |
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AVÉ MARIA* - (Cantada na igreja dos Anjos em Lisboa) |
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BRISAS DO MONTE* - VALSA (PARA PIANO) * - Edição Valentim de Carvalho (Referenciada na imprensa como composta em 1910) |
06/1916 |
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O SNR. EMBAIXADOR (OPERETA EM 1 ACTO, PARA CANTO E PIANO) - Letra de Santos Braga e Música de I. Gomes-Ferreira. |
12/1916 |
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CREPÚSCULO (VALSA PARA PIANO) - Edição Valentim de Carvalho |
07/1917 |
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CANÇÃO DA DESPEDIDA* (Integrada na Opereta Adeus Mocidade - Companhia Aura Abranches/Chaby Pinheiro) |
19/10/1917 |
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IDÍLIO RÚSTICO (POEMA SINFÓNICO PARA ORQUESTRA) |
1917 |
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ÚLTIMA DÁDIVA** (POEMA SINFÓNICO PARA ORQUESTRA) SUITE N.° 1 * (PARA ORQUESTRA):: |
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A) - Balada da penumbra,
B) - Cavador,
C) - Valsa do luar,
D) - A Fiandeira,
E) - Noite de S. João
COMPOSIÇÕES (PARA PIANO)
- Valsa Dolorosa*, Belkiss*, Rainha de Atlantida*, Valsa Austera, Ressureição*, Longe*, Palácio do mistério*, A fada do Luar*, Natal triste*, Minuete*, Gavote*, Pavana*
CANÇÕES POPULARES (PARA CANTO E PIANO) -
O Malmequer, Balada da tristeza*, Caveirinha*, Não faças mal a esse ninho*, Os conversados*, A fonte, O craveiro*, Aquela cachopa*, Tem cuidado com as silvas*, A lavadeira*, A Moleira*
QUARTETO N.° 1 ** (QUARTETO DE CORDAS)
A PASTORA ABANDONADA** 1921
VALSADAS FOLHAS SECAS, CAINDO (PARA PIANO) 31/10/1928
MENINO TRISTE - SCHERZO (PARA PIANO) 13/12/1928
VALSA DO DESDÉM (PARA PIANO) 23/12/1928
FADO N.° 1 (PARA PIANO) 08/01/1929
SONATA** (PARA PIANO) 28/03/1929
TATUAGENS (PARA PIANO) 28/03/1929
FADO N.° 2 (PARA PIANO) 08/06/1929
1ª VARIAÇÃO (PARA PIANO) 08/06/1929
2.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 12/06/1929
3.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 17/06/1929
4.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 19/06/1929
5.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 26/06/1929
6.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 26/06/1929
7.a VARIAÇÃO (PARA PIANO) 02/07/1929
FADO N.° 3 (PARA PIANO) 05/07/1929
* Partitura não encontrada, mas referida pelo autor ou na imprensa.
** Partitura ou apontamentos musicais, incompletos.
Realizações no campo musical efectuadas no decurso do centenário do nascimento de José Gomes Ferreira
(Listagem)
12 de Outubro de 2000 - Café Magestic - Porto
Recital de Canto, Música e Poesia, organizado pela Associação Portuguesa de Escritores, com Luís Machado, Manuel Feire e Quarteto de Cordas do Porto - I.a Audição de composições para piano de José Gomes Ferreira interpretadas por Luís Pipa (Valsa das folhas secas, caindo; Fado n.° 2 com Variações; e Fado n.° 3)
5 de Dezembro de 2000 – Palácio Galveias - Lisboa
“Sala de Concertos”, recital promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, com Nuno Vieira de Almeida (piano), Luís Lucas (poesia) e Inês Calazan (canto) sobre poemas de Sala de Concertos de José Gomes Ferreira, com obras de Beethoven, Brahms, Stravinsky, Shostakovitch, Schumann, Mahler, Wagner, Grieg, Lopes-Graça, R. Strauss, Mozart, Bach, Falla, Verdi e Schonberg seleccionada por Nuno Vieira de Almeida, com posterior edição discográfica.
16 e 30 de Março de 2001 - Academia de Amadores de Música- Lisboa
O ciclo "A Palavra e a Música" de Homenagem a José Gomes Ferreira pela Academia de Amadores de Música, contou na parte musical com a colaboração de António Vitorino de Almeida (palestra), Ana Ferraz (Canto), Gabriela Canavilhas (Piano), o Grupo de Guitarras Per Suonare da AAM e o Coro Lopes-Graça da AAM, incluindo a interpretação de obras de Leo Brouwer, Lopes-Graça, Eurico Carrapatoso, Frederico de Freitas e José Gomes Ferreira (Valsa das folhas secas, caindo; e Fado n.° 3, para piano, por Gabriela Canavilhas).
13 de Setembro de 2001 - Cine-Teatro Tivoli - Lisboa
Concerto de Homenagem a José Gomes Ferreira, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, que incluiu a 2.1 audição do Poema sinfónico "Idílio Rústico" executado pela Orquestra Metropolitana de Lisboa sob a direcção de César Viana e outras composições musicais, para piano, de José Gomes Ferreira, interpretadas por Armando Vidal (O menino triste; Valsa das folhas secas, caindo; e Fado n.° 3), para além de composições de Fernando Lopes-Graça com poemas de José Gomes Ferreira, interpretadas por Isabel Alcobia, Armando Vidal e o Coral Lisboa Cantat sob direcção de Jorge Carvalho Alves.