Entrevista a Raul Hestnes Ferreira

 

                                                                                   

 

V.A. – O que é que o levou a projectar uma escola com estas características   arquitectónicas?

 

H.F. – A génese desta escola seguiu um processo muito interessante. Basicamente, nasceu da vontade e da determinação de uma Comissão de Pais da zona de Benfica. Eles falaram comigo, e o projecto foi para a frente. Na altura, eu estava muito ligado às construções escolares, e o grande desafio foi fazer uma coisa que se integrasse no panorama escolar que existia na altura, mas uma coisa pensada, e não uma “escola-tipo” como infelizmente ainda há. Ou seja, tentei adaptar os pavilhões, dentro de um espírito constitucional ( risos)… Foi uma escola desenhada para aquele local, e não para ser  difundida  em Trás os Montes ou no Algarve.

 

V.A. – Foi um projecto difícil?

 

H.F. – Bem, o plano inclinado era difícil, mas foi também um desafio. Por exemplo, a cascata que desce ao longo da encosta tinha por base a ideia de aproveitar a nascente que lá existia, e que lá fomos encontrar quando começaram os trabalhos. E acabou por ser aproveitada para drenar as águas. Aquilo é um puro edifício de encosta.

 

V.A. – E em que tipo de coisas é que se inspirou?

 

H.F. – Bem, eu viajava muito, conheci escolas no Reino Unido, em França, na Suécia, e foi esse contacto que me ajudou a criar esta obra em muito pouco tempo.

 

V.A. – A que é que chama pouco tempo?

 

H.F. – Um mês ou dois, a concepção global.

            Eu fiz uma coisa muito simples: parti de elementos da escola tipo, que eu conhecia bem ( sala 7,20 x 7,20 = 50 m2 ), que era a norma, e multipliquei este módulo métrico por 2, por 3, para conseguir volumes maiores. Mas é este quadrado base que preside à arquitectura.

 

V.A. – Então é uma espécie de jogo…

 

H.F. – Jogo mental ...  claro. Diverti-me imenso. E se repararem, há também um jogo de alturas com os edifícios: mais altos os das pontas do que os do meio, mais pequeno os lados que o meio (???)    Esta é a matriz para a qual depois convergiram outros factores. E depois há outras coisas, por exemplo o átrio ser também o auditório central, com as bancadas a servirem de degraus para o piso superior.  

Houve umas coisas que foram alteradas, como a porta superior do Bloco C ( porta que dá para os matraquilhos), que foi pensada como entrada principal do pavilhão, mas acabou por não ser essa a função dela.

 

V.A.. – Essa porta é aberta nos bailes de gala, um dos momentos mais solenes na escola, é quase uma porta “jubilar”.

 

H.F. – Ah, que piada! Pois é, sabe, os arquitectos fornecem o produto e depois as pessoas organizam o espaço como entendem . 

            Outro dos aspectos que me levou a desenhar a escola com estas características , foi o sentido de liberdade que queria transmitir, uma liberdade que não tinha na escola onde eu andei em miúdo.

 

V.A. – Era  mesmo o que iamos perguntar-lhe: se tinha sido influenciado pela sua própria percepção da escola como aluno…

 

H.F. – Claro! Eu andava no Convento de São Vicente de Fora, que se via daqui antes de terem feito aquelas obras… E foi, aliás, a escola onde o meu pai também andou.O Liceu (na altura dizia-se assim) era no último piso do Convento! Uma coisa enorme, com as celas e aqueles corredores imensos. E sempre achei que as coisas devem ser feitas por interesse, e a escola funcionava muito por coacção. Hoje já não é assim…felizmente!

             E por ter  vivido muito a escola, quis oferecer uma grande variedade de espaços, porque a escola pode ser útil, versátil, legível. Deve ter espaço… e espaços, também, espaços com vida própria…

 

V.A. – Algum desses espaços o toca particularmente?

 

H.F. – Sempre gostei muito da galeria, [ o corredor à volta do Bloco C, de acesso à biblioteca e CRE ], pois considero-a um espaço onde podem acontecer coisas, e quando lá vou, vejo sempre pessoas a conversar ou uma pessoa sozinha que tem ali um canto para se refugiar.

           

V.A. – Sabe que de acordo com uma nova maneira de pensar a escola, se põe a hipótese de  abrir o espaço circundante da escola ao fim de semana à comunidade…

 

H.E. – Acho lindo! Acho que tem todo o sentido. Essa é precisamente a minha ideia de escola, mas infelizmente nem tudo se concretizou como eu tinha previsto e muitos projectos não passaram do papel.

 

V.A. – Como por exemplo…

 

H.E. – Olhem, estava prevista uma alameda, desde os pavilhões até ao parque de estacionamento atrás do pavilhão gimno-desportivo; uma cantina, afundada no campo de jogos, com chaminés com motivos escultóricos  ( risos) ; uma piscina ...

 

V.A. – Porque é que nenhuma deles se chegou a realizar?

 

H.E. – Não sei porque é que nunca se chegou a construir, se quiserem eu faço isso, e não é com grande custo.

Há projectos muito demorados e neste conseguiu-se uma boa síntese. Era um sítio periférico relativamente ao que é o centro de Lisboa, e por isso a ideia era trazer imagens, elementos tipológicos como as escadinhas, que são símbolos de Lisboa, e que foi  o que eu conheci em criança. Isso permite estimular a imaginação das pessoas, e obviamente essa é uma das primeiras missões da escola!

Também adoptámos uma filosofia mediterrânica da cidade estendida pela encosta, e mantivémos a proximidade entre os blocos que se encontra numa cidade como Lisboa, sobretudo na zona mais antiga. Em todo o caso tivémos a preocupação de evitar que houvesse salas umas em frente das outras, coisa que só acontece num caso excepcional, pois há professores mais formais, outros mais liberais, e se calhar nem se dariam bem a trabalhar em espaços comunicantes. Aliás, nas construções escolares já tínhamos vivido a experiência (dolorosa!) das P3, no 1º ciclo do básico, e tentámos que cada professor tivesse o seu espaço próprio.

 

V. A. – O que sente ao ver a nossa escola tão degradada?

 

H.E. – É claro que sinto pena, e até já tivemos quase a começar um projecto de reconstrução dos espaços degradados, o que poderia levar também à construção da cantina, mas por motivos de força maior o projecto ficou suspenso. Agora, assim que podermos, iremos, com todo o gosto,  recuperá-la.

 

V. A. – Se hoje lhe lançassem o mesmo desafio, voltaria a fazer uma escola com estas características?

 

H. E. – Não voltaria a fazer o mesmo, mas esta é, sem dúvida, uma construção modelo do meu trabalho como arquitecto. Continua a ser uma referência para mim e para o que eu faço. Pessoas que queiram estudar a minha obra, estudam a escola, que representa uma boa síntese do que eu faço.

 

E já agora, como é que se está na escola ?

 

V.A. – Muito bem, temos um quadro de professores bastante estável, a escola projecta uma boa imagem para o exterior, e a prova disso é que muitos alunos nos procuram. E temos uma série de actividades extracurriculares, olhe, como este Jornal, o Clube Multimédia, Artes e Ideias, um Centro de Recursos a funcionar, … acho que aproveitamos bem essa flexibilidade que o próprio espaço da escola oferece…

 

V.A. – Gostávamos de entrar num campo mais pessoal. Como era a  sua relação com o seu pai?

 

H.E. –  Bem, o mau pai já tinha essa relação com o pai dele, uma relação muito forte com os filhos – imensa confiança nos filhos, até talvez exagerada, não sei, o amor traduzia-se em confiança, fruto de uma grande independência, que é uma das coisas fundamentais.

Os seus ideais políticos transmitiam-se naturalmente a nós. Contava muitas histórias e aprendíamos muito com o meu pai, mas ele também era muito atento ao que dizíamos. Sabia ouvir quem quer que fosse. Era muito observador e aprendia com os outros.

Valorizava os ideais da Revolução Francesa, principalmente a fraternidade e a bondade. E usava esta expressão: “ é um homem bom”, que lhe vinha do pai dele. Prezava a tolerância acima de tudo.

 

V.A. – Quanto aos seus trabalhos escritos, o seu pai mostrava-os a si e ao seu irmão, pedia-vos opinião?

 

H.E. – Ele dava-nos a ler muita coisa. Às vezes tinha uma opinião sobre as coisas mas não dizia, e depois viemos a descobrir que a escrevia no diário. Diários que estamos agora a publicar, inéditos.

 

V.A. – Isso quer dizer que está a redescobrir o seu pai?

 

H.E. – Sem dúvida que há facetas nele de que só agora me apercebo, e isso graças a esses escritos. O meu avô era um homem de acção, ele não, ele era um poeta e os seus pensamentos convertiam-se em poemas.

 

V.A. – Bem, acho que com isto vamos com certeza ler os textos do seu pai de outra maneira… e olhar para a escola com outros olhos! Muito obrigada.

 

H.E. – O gosto foi meu, até porque tento manter contacto com as minhas obras, e é sempre um prazer para mim falar do meu pai.

 

 

 

 

Palácio Galveias – 23 de Novembro

 

Museu da República – 25 de Novembro

 

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