H.F. – A génese desta escola seguiu um processo muito interessante.
Basicamente, nasceu da vontade e da determinação de uma Comissão de Pais da
zona de Benfica. Eles falaram comigo, e o projecto foi para a frente. Na
altura, eu estava muito ligado às construções escolares, e o grande desafio foi
fazer uma coisa que se integrasse no panorama escolar que existia na altura,
mas uma coisa pensada, e não uma “escola-tipo” como infelizmente ainda há. Ou
seja, tentei adaptar os pavilhões, dentro de um espírito constitucional (
risos)… Foi uma escola desenhada para aquele local, e não para ser difundida
em Trás os Montes ou no Algarve.
V.A. – Foi um projecto difícil?
H.F. – Bem, o plano inclinado era difícil, mas foi também um desafio.
Por exemplo, a cascata que desce ao longo da encosta tinha por base a ideia de
aproveitar a nascente que lá existia, e que lá fomos encontrar quando começaram
os trabalhos. E acabou por ser aproveitada para drenar as águas. Aquilo é um
puro edifício de encosta.
V.A. – A que é que chama pouco tempo?
H.F. – Um mês ou dois, a concepção global.
V.A. – Então é uma espécie de jogo…
H.F. – Jogo mental ... claro.
Diverti-me imenso. E se repararem, há também um jogo de alturas com os
edifícios: mais altos os das pontas do que os do meio, mais pequeno os lados
que o meio (???) Esta é a matriz para
a qual depois convergiram outros factores. E depois há outras coisas, por
exemplo o átrio ser também o auditório central, com as bancadas a servirem de
degraus para o piso superior.
Houve umas coisas que foram alteradas, como a porta superior do Bloco C
( porta que dá para os matraquilhos), que foi pensada como entrada principal do
pavilhão, mas acabou por não ser essa a função dela.
V.A.. – Essa porta é aberta nos bailes de gala, um dos
momentos mais solenes na escola, é quase uma porta “jubilar”.
H.F. – Ah, que piada! Pois é, sabe, os arquitectos fornecem o produto e
depois as pessoas organizam o espaço como entendem .
Outro dos aspectos que
me levou a desenhar a escola com estas características , foi o sentido de
liberdade que queria transmitir, uma liberdade que não tinha na escola onde eu
andei em miúdo.
V.A. – Era
mesmo o que iamos perguntar-lhe: se tinha sido influenciado pela sua
própria percepção da escola como aluno…
H.F. – Claro! Eu andava no Convento de São Vicente de Fora, que se via
daqui antes de terem feito aquelas obras… E foi, aliás, a escola onde o meu pai
também andou.O Liceu (na altura dizia-se assim) era no último piso do Convento!
Uma coisa enorme, com as celas e aqueles corredores imensos. E sempre achei que
as coisas devem ser feitas por interesse, e a escola funcionava muito por
coacção. Hoje já não é assim…felizmente!
E por ter
vivido muito a escola, quis oferecer uma grande variedade de espaços,
porque a escola pode ser útil, versátil, legível. Deve ter espaço… e espaços,
também, espaços com vida própria…
V.A. – Algum desses espaços o toca particularmente?
H.F. – Sempre gostei muito da galeria, [ o corredor à volta do Bloco C, de acesso à
biblioteca e CRE ], pois considero-a um espaço onde podem acontecer
coisas, e quando lá vou, vejo sempre pessoas a conversar ou uma pessoa sozinha
que tem ali um canto para se refugiar.
V.A. – Sabe que de acordo com uma nova maneira de
pensar a escola, se põe a hipótese de
abrir o espaço circundante da escola ao fim de semana à comunidade…
H.E. – Acho lindo! Acho que tem todo o sentido. Essa é precisamente a
minha ideia de escola, mas infelizmente nem tudo se concretizou como eu tinha
previsto e muitos projectos não passaram do papel.
V.A. – Como por exemplo…
H.E. – Olhem, estava prevista uma alameda, desde os pavilhões até ao
parque de estacionamento atrás do pavilhão gimno-desportivo; uma cantina,
afundada no campo de jogos, com chaminés com motivos escultóricos ( risos) ; uma piscina ...
V.A. – Porque é que nenhuma deles se chegou a
realizar?
H.E. – Não sei porque é que nunca se chegou a construir, se quiserem eu
faço isso, e não é com grande custo.
Há projectos muito demorados e neste conseguiu-se uma
boa síntese. Era um sítio periférico relativamente ao que é o centro de Lisboa,
e por isso a ideia era trazer imagens, elementos tipológicos como as
escadinhas, que são símbolos de Lisboa, e que foi o que eu conheci em criança. Isso permite estimular a imaginação
das pessoas, e obviamente essa é uma das primeiras missões da escola!
V. A. – O que sente ao ver a nossa escola tão
degradada?
H.E. – É claro que sinto pena, e até já tivemos quase a começar um projecto
de reconstrução dos espaços degradados, o que poderia levar também à construção
da cantina, mas por motivos de força maior o projecto ficou suspenso. Agora,
assim que podermos, iremos, com todo o gosto,
recuperá-la.
V. A. – Se hoje lhe lançassem o mesmo desafio,
voltaria a fazer uma escola com estas características?
H. E. – Não voltaria a fazer o mesmo, mas esta é, sem dúvida, uma
construção modelo do meu trabalho como arquitecto. Continua a ser uma
referência para mim e para o que eu faço. Pessoas que queiram estudar a minha
obra, estudam a escola, que representa uma boa síntese do que eu faço.
E já agora, como é que se está na escola ?
V.A. – Muito bem, temos
um quadro de professores bastante estável, a escola projecta uma boa imagem
para o exterior, e a prova disso é que muitos alunos nos procuram. E temos uma
série de actividades extracurriculares, olhe, como este Jornal, o Clube
Multimédia, Artes e Ideias, um Centro de Recursos a funcionar, … acho que
aproveitamos bem essa flexibilidade que o próprio espaço da escola oferece…
V.A. – Gostávamos de entrar
num campo mais pessoal. Como era a sua
relação com o seu pai?
H.E. – Bem, o
mau pai já tinha essa relação com o pai dele, uma relação muito forte com os
filhos – imensa confiança nos filhos, até talvez exagerada, não sei, o amor
traduzia-se em confiança, fruto de uma grande independência, que é uma das
coisas fundamentais.
Os seus ideais políticos transmitiam-se naturalmente a
nós. Contava muitas histórias e aprendíamos muito com o meu pai, mas ele também
era muito atento ao que dizíamos. Sabia ouvir quem quer que fosse. Era muito
observador e aprendia com os outros.
Valorizava os ideais da Revolução Francesa,
principalmente a fraternidade e a bondade. E usava esta expressão: “ é um homem
bom”, que lhe vinha do pai dele. Prezava a tolerância acima de tudo.
V.A. – Quanto aos seus
trabalhos escritos, o seu pai mostrava-os a si e ao seu irmão, pedia-vos
opinião?
H.E. – Ele dava-nos a ler muita coisa. Às vezes tinha
uma opinião sobre as coisas mas não dizia, e depois viemos a descobrir que a
escrevia no diário. Diários que estamos agora a publicar, inéditos.
V.A. – Isso quer dizer que
está a redescobrir o seu pai?
H.E. – Sem dúvida que há facetas nele de que só agora
me apercebo, e isso graças a esses escritos. O meu avô era um homem de acção,
ele não, ele era um poeta e os seus pensamentos convertiam-se em poemas.
V.A. – Bem, acho que com
isto vamos com certeza ler os textos do seu pai de outra maneira… e olhar para
a escola com outros olhos! Muito obrigada.
H.E. – O gosto foi meu, até porque tento manter
contacto com as minhas obras, e é sempre um prazer para mim falar do meu pai.
Palácio Galveias – 23 de Novembro
Museu da República – 25 de Novembro
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